Quinta-feira, Novembro 01, 2007

Estúpido Orgulho

O retrato está pousado sobre a mesa que o tempo se encarrega de ofuscar, o brilho e as cores estão cada vez mais cinza escuro, como tudo à sua volta.
  Lá fora, o sol toca as árvores do parque, só deixando passar um raio de luz que vai em direcção a duas pessoas: a mãe e o filho, sentados no banco de pedra olhando o rio que o levou.
 O tempo passa e leva com ele o passado. As memórias tornam-se difusas, sentimentos de revolta e ódio misturados com amor e paixão, dir-se-ia que só os retratos permitem que se saiba ter existido cada um desses rostos.

Levantou-se. Olhou as árvores. E lembrou: ” Estúpido Orgulho” bastava um sorriso, um gesto, uma simples palavra (fica).
Mas não, tudo foi levado pelo vento naquele barco à vela que suavemente o empurrava para o mar, deixando cada vez mais longe os nossos corações, naquela manhã de sol com orvalho à mistura que mais parecia lágrimas que o sol teimava em secar.
Os anos iam passando e o sentimento de revolta aumentava, todos os dias ao nascer da aurora, se curvava lentamente na sua janela olhava o rio, direita esquerda, esquerda direita e nada só o vento, que ao soprar mais forte fez entrar pela janela folhas murchas que já não servem para nada. Fechou a janela e com cuidado apanhou uma a uma para cima da cama e com elas escreveu António, depois foi acariciando com suas mãos que mais pareciam penas para não o acordar.
Deitou-se ao seu lado sorrindo, seus olhos tão brilhantes que mais pareciam diamantes e assim adormeceu.
Só acordou na manha seguinte com o cantar dos pássaros e ainda em pijama dirigiu-se lentamente, suavemente parecendo ser levada pelo vento até ao rio.
Foi quando ouviu um barulho que vinha em sua direcção, olhou em frente mas só conseguia ver um reflexo, seu coração parou por momentos e em seguida gritou:
- Annntóóóóóóóóóóóóóóóóóónio.
Fechou os olhos e abriu os braços, sentia cada passo a aproximar-se, os olhos abrem e fecham como um flash teimando captar aquele momento.
Um beijo na testa, um olhar sem palavras, aquele sorriso anestesiante, finalmente aquele abraço para sempre.
Há um novo retrato sobre a mesa.
Escrito por Diana em 21:34:03 | Link permanente | Comments (0) |
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